
Perdoar é preciso
Por Catarina da Mota Brandão
Quem
estiver no Rio de Janeiro entre 23 de setembro e 7 de outubro
terá a oportunidade de ir ao Festival do Rio, uma das
mostras de cinema mais importantes da América Latina.
Uma das novidades da edição deste ano é
a mostra Foco África do Sul,
celebrando 10 anos de democracia no país. Serão
quatro filmes sul-africanos, entre eles Forgiveness,
primeiro longa-metragem do diretor Ian Gabriel.
Situado na pequena Paternoster – uma vila de pescadores
na costa oeste da África do Sul – o filme trata
do encontro entre um assassino e a família de sua vítima.
Tertius Coetzee (Arnold Vosloo) é um ex-policial que
vai à procura da família do estudante Daniel
Grootbloem, militante político anti-Apartheid que ele
torturou e assassinou no período mais sangrento do
regime. Apesar de anistiado, Tertius ainda vive atormentado
pelas atrocidades que cometeu. Decide, então, com a
ajuda do padre local, procurar a família do estudante
para tentar obter dela o perdão por seu crime e exorcizar
o passado.
O filme, que recebeu dois prêmios no Festival de Locarno,
na Suíça, é uma versão ficcional
bem próxima dos muitos relatos que vieram à
tona durante as audiências da TRC (Truth and Reconciliation
Commission), comissão que julgou nos anos noventa crimes
políticos cometidos durante o Apartheid e concedeu
anistia a criminosos em troca da verdade sobre seus crimes.
Passados dez anos desde o fim do abominável sistema
de segregação racial, não é difícil
perceber que as feridas foram profundas e ainda estão
longe de cicatrizar, o que por si só torna a obra relevante
e induz a uma recepção positiva.
Porém, apesar da boa vontade, é difícil
não perceber alguns deslizes. Arnold Vosloo, mais conhecido
por sua participação no hollywoodiano A
Múmia, deixa um pouco a desejar na pele do ex-policial
que matou a serviço do Apartheid. Além disso,
o filme apresenta várias pequenas falhas de edição
(o que não era de se esperar com um orçamento
de aproximadamente 2,5 milhões de reais), uma trama
inconsistente e uma forma um pouco explícita demais
de passar mensagens. Entre os aspectos positivos, destacam-se
a bela fotografia e a notável performance da atriz
Quanita Adams no papel de Sannie, a obstinada irmã
de Daniel, que não por acaso é a personagem-eixo
do filme.
Nunca é demais lembrar que se trata de um filme produzido
num país subdesenvolvido que busca sua identidade,
enfrenta graves problemas internos e luta para superar os
traumas de um passado recente. Sob essa ótica, talvez
alguns pecados de Forgiveness mereçam perdão.
Catarina da Mota Brandão é jornalista e mora
na Cidade do Cabo (África do Sul)
| Ficha Técnica: Forgiveness
Direção: Ian Gabriel
Elenco: Arnold Vosloo, Quanita Adams, Christo Davids,
Zane Meas, Denise Newman, Lionel Newton.
Nacionalidade: África do Sul, 2004
Duração: 112 minutos
Gênero: Drama
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